“Ide por todo mundo, Proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15)

Beata Nhá Chica — A Mãe dos Pobres de Baependi

“Ela não tinha nada, mas dava tudo. E foi exatamente por isso que Deus a escolheu.”

Quem foi Nhá Chica?

Francisca de Paula de Jesus  conhecida carinhosamente como Nhá Chica nasceu por volta de 1810 em Baependi, no sul de Minas Gerais, filha de uma escrava alforriada. Criada na pobreza mais absoluta, desde cedo aprendeu que a vida do cristão não se mede pelo que se tem, mas pelo que se oferece.

Órfã de pai ainda criança, foi criada pela mãe com muito sacrifício e profunda fé. O ambiente simples e sofrido não apagou nela a alegria ao contrário, pareceu acender uma chama que nunca mais se apagou.

Uma vida tecida de oração e silêncio.

Nhá Chica nunca se casou. Desde jovem sentiu que sua vocação era outra: pertencer inteiramente a Deus e ao serviço do próximo. Viveu em sua pequena casa de pau a pique, numa existência de clausura voluntária — sem convento, sem hábito religioso, sem reconhecimento oficial mas com uma vida interior tão profunda que os que a visitavam saíam transformados.

Ela passava longas horas em oração, muitas vezes em êxtase. Os vizinhos de Baependi aprenderam a reconhecer nesses momentos uma presença que ultrapassava o ordinário. A mulher simples, sem letras e sem posses, irradiava uma paz que o mundo não consegue fabricar.

A construtora da casa de Deus.

Um dos gestos mais marcantes da vida de Nhá Chica foi a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição em Baependi obra que ela realizou com seus próprios esforços, pedindo esmolas de porta em porta, sem jamais perder a dignidade nem a alegria.

Conta-se que, durante a construção, ela recebeu doações milagrosas e que os recursos apareciam nos momentos de maior necessidade. A capelinha tornou-se o centro da vida espiritual da região e, mais tarde, foi transformada na bela igreja que hoje guarda seus restos mortais a mesma que aparece ao fundo na fotografia com sua estátua.

A mãe que ninguém pediu, mas todos precisavam.

O coração de Nhá Chica tinha uma capacidade sem fundo para acolher. Sua porta estava sempre aberta para os pobres, os doentes, os viajantes, os desesperados. Ela dividia o pouco que tinha às vezes o único alimento que tinha para o dia sem hesitação e sem alarde.

Os mais humildes a chamavam de mãe. Não era figura de linguagem: ela exercia uma maternidade espiritual real sobre os que chegavam até ela. Ouvia, consolava, intercedia. E muitos relatavam que, após uma conversa com Nhá Chica, saíam com o coração aliviado de um peso que nem sabiam explicar.

Os dons sobrenaturais.

A tradição oral de Baependi preservou por gerações incontáveis relatos de curas, profecias e graças obtidas por intercessão de Nhá Chica ainda em vida. Ela teria previsto eventos futuros com precisão desconcertante e auxiliado pessoas em situações humanamente sem saída.

A Igreja, com a prudência que lhe é própria, examinou esses relatos ao longo de décadas antes de reconhecê-los. Mas para o povo simples de Minas Gerais, não havia dúvida: aquela mulher vivia em outro plano de intimidade com Deus.

A morte e o perfume da santidade.

Nhá Chica faleceu em 14 de junho de 1895, aos aproximadamente 84 anos. Sua morte foi tão serena quanto sua vida  um simples partir, quase sem ruído, como quem termina uma oração e começa outra.

O povo de Baependi nunca a esqueceu. Geração após geração, a devoção se manteve viva, passando de avós a netos com a naturalidade das coisas verdadeiras. Romeiros começaram a chegar de toda parte. As graças continuavam, e os testemunhos se acumulavam.

A beatificação.

Após um longo processo que examinou sua vida, virtudes e milagres, o Papa Francisco beatificou Francisca de Paula de Jesus no dia 4 de outubro de 2013, na Praça São Pedro, no Vaticano  junto com outros beatos brasileiros. Era a primeira vez que uma mulher leiga do Brasil recebia esse título.

Sua festa litúrgica é celebrada no dia 14 de junho, e Baependi tornou-se um dos grandes destinos de peregrinação do Brasil, recebendo fiéis de todos os estados que buscam junto à Beata Nhá Chica o que ela sempre soube dar: escuta, acolhida e intercessão.

O que ela nos diz hoje

A vida de Nhá Chica é um contraponto silencioso a tudo aquilo que o mundo contemporâneo supervaloriza: a visibilidade, o poder, a riqueza, a influência. Ela era invisível aos olhos do mundo e foi exatamente nessa invisibilidade que floresceu uma santidade capaz de atravessar séculos.

Ela nos lembra que a santidade não exige um palco. Exige um coração disponível. Exige a porta aberta, a mão estendida, o joelho dobrado. Exige a fidelidade cotidiana nas coisas pequenas porque são as coisas pequenas, feitas com grande amor, que constroem o Reino de Deus.

Beata Nhá Chica, rogai por nós.