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Leão do Deserto e Amante das Escrituras

30 de setembro de 2026

São Jerônimo: o leão do deserto e amante das Escrituras

Chamava-se Eusébio Sofrônio Jerônimo e nasceu em Estridão, terra que hoje repousa na Croácia, por volta do ano 347. O tempo não guardou o dia exato. Filho de família cristã e abastada, recebeu dos pais o dom de uma educação sólida e completou os estudos em Roma. Ali, a cidade eterna o seduziu com seus prazeres, e o jovem deixou-se levar pela correnteza do mundo. Mas o coração, inquieto, logo se voltou para Deus: arrependido, desceu às águas do Batismo e abraçou a vida contemplativa.

Seguiu para Aquileia e uniu-se a uma comunidade de ascetas. Quando as inimizades turvaram aquele ambiente, partiu desiludido e fez-se peregrino: rumou para o Oriente, deteve-se em Tréveris, voltou à terra natal e de novo pôs-se a caminho. Em Antioquia, lapidou o seu grego. Depois buscou o silêncio do deserto de Cálcis, ao sul de Alepo, e ali, eremita, viveu quatro anos inteiros entregue ao estudo. Aprendeu o hebraico, copiou com paciência os códices e os escritos dos Padres da Igreja, e na solidão meditou a Palavra de Deus até perceber, com clareza cortante, o abismo entre a mentalidade pagã e a vida cristã.

Cansado das disputas dos anacoretas, inflamadas pela doutrina ariana, regressou a Antioquia, onde foi ordenado sacerdote em 379. Mais tarde, em Constantinopla, sentou-se aos pés de São Gregório Nazianzeno para continuar bebendo da fonte da língua grega.

Secretário do Papa Dâmaso

Em 382, Jerônimo chegou a Roma para um encontro convocado pelo Papa Dâmaso sobre o cisma de Antioquia. Sua fama de asceta e erudito o precedia, e o Pontífice o fez seu secretário pessoal e conselheiro. Confiou-lhe então uma missão que atravessaria os séculos: traduzir de novo os textos bíblicos para o latim.

Na Urbe, Jerônimo reuniu em torno das Escrituras um círculo de nobres matronas romanas, sedentas da perfeição cristã e desejosas de fazer da Palavra um modo de viver. Elas o escolheram como mestre e guia espiritual. Seu rigor, porém, não encontrava eco no clero, e as regras que propunha às discípulas pareciam severas demais. De temperamento ardente e língua afiada, denunciava vícios e hipocrisias e não poupava de polêmica nem sábios nem eruditos. Por isso colecionou desafetos.

Morto o Papa Dâmaso, voltou os olhos novamente para o Oriente. Em agosto de 385, embarcou em Óstia rumo à Terra Santa, acompanhado de alguns monges e de um grupo de seguidores, entre eles a nobre Paula e sua filha Eustóquia. Começava a grande peregrinação, que o levou ao Egito e, por fim, a Belém. Lá abriu uma escola e ensinava de graça. Pela generosidade de Paula, ergueram-se dois mosteiros, um de homens e outro de mulheres, e uma hospedaria para os peregrinos que vinham tocar os lugares santos.

O Retiro em Belém

Em Belém, Jerônimo lançou raízes para sempre. Ali consumiu seus dias a serviço da Palavra de Deus, na defesa da fé, no ensino da cultura clássica e cristã e no acolhimento dos peregrinos. Adormeceu em sua cela, junto à Gruta da Natividade, num 30 de setembro, provavelmente do ano 420, à sombra do lugar onde o Verbo se fez carne.

Impetuoso, polêmico, tantas vezes dissonante, foi odiado e foi amado. Não era fácil dialogar com ele, mas deixou ao Cristianismo um tesouro: o testemunho de sua vida e a vastidão de seus escritos. A ele devemos a Vulgata, a primeira tradução da Bíblia para o latim: os Evangelhos vertidos do grego, o Antigo Testamento do hebraico. Ainda hoje, revisada, é o texto oficial da Igreja de língua latina. E a Palavra que tanto estudou e interpretou não ficou apenas no pergaminho. Foi, como disse Bento XVI, “vivida concretamente”. O Papa dedicou-lhe duas catequeses, nas Audiências Gerais de 7 e 14 de novembro de 2007.

Seus Ensinamentos e Obras

“O que podemos aprender de São Jerônimo? Parece-me, sobretudo, o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura; é importante, hoje, que os cristãos vivam em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus, que nos foi dada pela Sagrada Escritura… esta Palavra também constrói comunidades, que constituem a Igreja. Logo, devemos lê-la em comunhão com a Igreja viva.”

Jerônimo é uma das quatro grandes colunas da Igreja do Ocidente, ao lado de Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno, e foi proclamado Doutor da Igreja. Seu legado continua vivo em comentários, homilias, cartas, tratados e obras de história e hagiografia. Entre elas brilha o De Viris Illustribus, com biografias de 135 autores, cristãos em sua maioria, mas também judeus e pagãos. É prova de que a cultura cristã era “uma verdadeira cultura, digna de ser comparada com a clássica”. Há também o Chronicon, tradução e reelaboração latina da obra grega de Eusébio de Cesareia, cujo original se perdeu. Nele, a história universal é narrada entre fatos e mitos, do nascimento de Abraão até o ano 325. E há, por fim, suas numerosas cartas, ricas em ensinamentos e conselhos cuidadosos, onde ainda pulsa a profundidade de sua alma.

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